23/05/2012
às 5:29
Márcio Thomaz Bastos. Nunca antes na
história das democracias houve alguém como ele. É um ser único no mundo
democrático
Olhem aqui: todos têm direito a
um advogado. É fundamento do estado de direito. Ninguém é obrigado a produzir
provas contra si mesmo ou a se autoincriminar. É outro fundamento do estado de
direito. Advogados criminalistas não devem atender apenas freirinhas do
convento das carmelitas descalças e probos professores de educação moral e
civismo. Muito provavelmente eles não precisem de… advogados criminalistas.
Isso também é um apanágio do estado de direito.
Márcio Thomaz Bastos é, sem
dúvida, um dos maiores criminalistas do país. Fez fama e grande fortuna nesse
ramo. Que o advogado provavelmente mais rico do país atue justamente na área
criminal, eis um emblema da vida pública brasileira, não é? Ao mesmo tempo, Bastos
sabe cuidar de sua reputação politicamente correta. O militante lulo-petista
falou, por exemplo, como “amicus curiae” no STF em defesa das cotas raciais.
Curiosamente, pronunciava-se em nome da Associação dos Advogados
Afrodescendentes. Adiante.
Não! Não serei eu aqui a julgar
doutor Márcio em razão da qualidade de seus clientes. Isso não faz sentido.
Seria o mesmo que dizer que o estado se torna copartícipe de crime quando
nomeia, por força de lei, um defensor para o pior dos homicidas. O ponto definitivamente
não é esse.
O problema de Márcio Thomaz
Bastos não é sua expertise de criminalista, mas a sua inserção na vida
política. Eu duvido que exista em qualquer outra democracia do mundo alguém
como ele. É militante partidário; é um dos principais conselheiros e
interlocutores de Lula (dentro e fora do poder formal) — o mesmo Lula que
tenta, a todo custo, manipular a CPI; foi ministro da Justiça; guarda os
arcanos da República e do PT…
Essa condição lhe rendeu hoje,
durante a CPI do Cachoeira, muitos elogios, salamaleques e rapapés. Ora, foi
durante a sua gestão no Ministério da Justiça, com a Polícia Federal sob o seu
comando, que se estabeleceu no país a República do Grampo. Foi sob o seu
comando que setores da PF decidiram brincar de luta de classes, com algumas
operações espetaculosas para demonstrar que “os ricos também choram”. Sob os
seus auspícios, prisões, digamos, midiáticas ganharam o noticiário. O preso
poderia até ser solto logo depois, mas a notícia já estava garantida. E se
criou então um mito: acabou a impunidade, acabou a festa!
Acabou? Como criminalista no
Ministério da Justiça, foi dele a tese de que mensalão era mero caixa dois de
campanha. O esquema Delta, diga-se, tem tudo para ser um mensalão de dimensões
pantagruélicas. Não venham me dizer que devemos encarar como coisa corriqueira
o fato de Dr. Márcio ora estar de um lado do balcão, tentando coibir o crime,
ora estar do outro, oferecendo seus préstimos profissionais a criminosos. Não
há nada de errado numa coisa. Não há nada de errado na outra. Uma e outra são
parte do jogo democrático. Quando as duas condições, no entanto, se juntam num
homem só, há algo de errado é na República.
Consta que a defesa de
Cachoeira custará R$ 15 milhões ao contraventor. 99,9% dos criminalistas
brasileiros — na verdade, dos advogados — não ambicionam receber isso ao longo
de, sei lá, 10 ou 15 anos; uma vida, quem sabe? Por isso, claro!, parabéns ao
doutor Márcio. Mas não o parabenizo, não!, por ser, a um só tempo, um
homem que domina segredos de estado e do principal partido do poder e também o
advogado de um criminoso que tem relações íntimas com essas duas instâncias.
Se os parlamentares quiserem
elogiar o criminalista, fiquem à vontade. Se quiserem elogiar o ex-ministro da
Justiça, vá lá. As duas coisas no mesmo discurso? Aí não! Isso é mais sintoma
de um problema do que motivo para regozijo. De resto, dado o perfil, não
será doutor Bastos a estimular Cachoeira a dizer tudo o que sabe justamente
contra o grupo de poder e a corrente ideológica que fazem do advogado a mais
fina flor do pensamento dito ”progressista e de esquerda” do Brasil.
Vejam que coisa: Márcio Thomaz
Bastos detém hoje segredos de estado (foi ministro de uma das pastas mais
importantes), segredo do PT e segredos do Cachoeira. Tudo isso e, consta, mais
R$ 15 milhões só nessa causa. O Brasil que ele sempre disse que queria mudar
tem sido muito generoso com ele.